Mulher Maravilha e a arte de contar boas histórias

Em Cotidiano por NexFaça um Comentário

Aqueles que contam as melhores histórias governam a sociedade”. A frase é de Platão, que viveu na Grécia Antiga, mas se mantém muito atual.

O storytelling, termo que traduz a ação de contar histórias de forma interessante, é hoje a palavra mais popular dentro da publicidade. Uma pesquisa recente da NewsCred indicou que quase 80% dos diretores de marketing acreditam que o conteúdo é onde o futuro da propaganda está. Dois terços também acham que associar um conteúdo de qualidade à marca é uma das formas mais eficientes de gerar engajamento com o consumidor.

Uma história bem contada é o que determina a experiência do público, para o bem e para o mal. Para entendermos melhor essa questão, podemos olhar um pouco para o cenário atual do mercado cinematográfico, voltado essencialmente para a cultura de blockbusters e grandes entretenimentos.

SUPER-HERÓIS NO CINEMA

Faz quase uma década que os filmes de super-heróis se tornaram atrações frequentes nas salas de cinema, sempre com faturamentos milionários que e volta e meia figuram na lista de maiores bilheterias da história. O gênero se consolidou e tomou forma por meio de personagens como Homem de Ferro, Batman e Capitão América.

Por trás desse sucesso estão duas grandes companhias: a Marvel Studios, subsidiária da Disney, e a DC Films, associada à Warner Bros. Pictures. A primeira foi a pioneira nesse mercado, lançando filmes anualmente desde 2007 e criando um universo cinematográfico abrangente e conectado, enquanto a segunda, dona de personagens icônicos como Superman e Batman, se viu obrigada a seguir o mesmo caminho a partir de 2013 para não perder relevância no setor.

Enquanto filmes da Marvel, como Os Vingadores (2012) e Guardiões da Galáxia (2014), explodiam em popularidade, receita e críticas positivas, a DC penava para alcançar o mesmo patamar. Man of Steel (2013) e Batman v Superman (2016) não tiveram o sucesso esperado mesmo contando com alguns dos super-heróis mais conhecidos do mundo.

Roteiros fracos, produções apressadas e personagens mal explorados foram as principais críticas que a filiada da Warner recebeu. Dentro desse contexto, o anúncio de que a Mulher Maravilha ganharia seu primeiro filme solo em 2017 (75 anos depois de fazer sua estreia nos quadrinhos) deixou muitos fãs receosos.

A DC iria conseguir levar para os cinemas a essência da personagem, apresentando de forma convincente todos os elementos que compõem o universo no qual ela está inserida (como a mitologia grega e a sociedade feminina e matriarcal das Amazonas) depois dos tropeços nos primeiros filmes?

O TRIUNFO DO ROTEIRO

Sim, iria. A crítica especializada e os fãs assíduos teceram elogio sobre elogio para o filme após o seu lançamento (ocorrido no último dia 01 de junho), desde a produção e o figurino até as atuações (com destaque para a atriz israelense Gal Gadot no papel principal).

E tudo isso só se tornou realidade porque o filme é construído em cima de uma história forte, divertida e universal. Patty Jenkins, a diretora do longa, optou por fazer uma abordagem simples e direta da princesa Diana, personagem principal da trama.

O roteiro nos apresenta de forma direta os elementos necessários para compreendermos a construção da personalidade da protagonista. Sem entrar em muitos spoilers, por meio de diálogos bem construídos podemos entender desde sua origem e aptidão guerreira até sua relação com o mundo do começo do século XX, época em que o filme se passa.

A nuance do roteiro ao sair da zona de conforto e levar a história para o passado contribui para discutir melhor alguns temas importantes para o desenrolar do filme, como a representação feminina na sociedade, com fortes regras sociais que impediam (e ainda impedem) as mulheres de assumirem papeis de protagonismo.

No final, cria-se uma conexão emocional consistente entre o público e os personagens que, aliada à simplicidade e clareza com que a trama é construída, torna a experiência gratificante para quem está assistindo. Ou seja, uma história bem contada transformou Mulher Maravilha no melhor filme da DC até agora, mesmo não tendo o mesmo investimento de produções anteriores.

TODO MUNDO PRECISA CONTAR BOAS HISTÓRIAS

O sucesso do filme da Mulher Maravilha é só um exemplo de como um bom storytelling pode transformar positivamente qualquer cenário. Trabalhadores, empresas e líderes precisam saber como contar uma boa história para se comunicar de forma mais eficiente com quem está ao seu redor. Quem vende uma imagem forte e distinta em cima de um conteúdo bem construído consegue se destacar no mercado sem precisar de grandes investimentos.

E para criar um bom storytelling, você deve estar atento a alguns pontos bem importantes:

  • É preciso entender o que é interessante para o público, não só para você. Seja o mais universal possível na hora de criar.
  • Defina a essência da sua história e qual é a forma mais curta de contá-la. Isso pode se tornar um excelente ponto de partida para novas ideias.
  • Identifique-se com as situações e os personagens que estão sendo criados para que não surja nada muito inverossímil para o público.
  • Crie uma curva dramático crescente e bem estruturada, apresentando de forma clara os conflitos e desafios da trama, além de pensar em boas soluções para cada um deles.
  • A primeira ideia quase nunca é a melhor. Saia da sua zona de conforto e experimente novas abordagens. Dessa forma, você vai acabar surpreendendo a si mesmo e, consequentemente, o público também.

Como foi dito no começo do texto, boas histórias são uma das melhores formas de chamar atenção. Elas ajudam a fixar ideias e a persuadir de forma mais eficiente quem é impactado. O próprio filme da Mulher Maravilha lançou uma nova discussão sobre feminismo e representatividade apenas abordando esse tema de forma concisa e clara.

Histórias inspiram e motivam. Criam laços e entretém. Como previu Platão milhares de anos atrás, no mundo cada vez mais conectado de hoje só vão se destacar aqueles que contarem as melhores.

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